Por - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.

A escolha de uma área de atuação profissional nem sempre acontece por planejamento perfeito. Às vezes, ela nasce de uma reunião, de uma pergunta simples e de uma percepção clara sobre o tipo de vida que você não quer ter.

Foi assim que surgiu a decisão de seguir no direito societário e, depois, sair da Bahia para construir carreira em São Paulo. Uma escolha difícil, mas estratégica.

A Reunião Que Mudou Minha Visão Profissional

Quando eu era estagiário, trabalhava no contencioso, como acontece com muitos profissionais no início da carreira jurídica. Em uma determinada ocasião, participei de uma reunião com um cliente que tinha um caso relevante para ser analisado.

Esse cliente era distribuidor de uma empresa de equipamentos agrícolas. Durante anos, ele investiu tempo, dinheiro e relacionamento para abrir mercado. Desenvolveu o Nordeste, abriu espaço no interior da Bahia e construiu uma operação que levou cerca de oito anos para ganhar força.

Depois de todo esse trabalho, quando o mercado já estava aberto e a estrutura comercial funcionando, a matriz decidiu cortar o relacionamento com ele. Em outras palavras, depois que ele preparou o terreno, a matriz encerrou a relação e passou a aproveitar diretamente aquilo que ele havia construído.

Esse tipo de situação é mais comum do que parece. Empresas grandes, pressionadas por resultado, muitas vezes olham para representantes, distribuidores ou fornecedores como uma forma de gerar caixa ou melhorar números de curto prazo.

A lógica é dura: o diretor precisa entregar resultado. Quando acredita que não há mais de onde tirar, pode passar a pressionar fornecedores, alongar pagamentos, cortar representantes ou encerrar relações comerciais. Até a outra parte processar, ganhar e receber, podem se passar 10, 15 ou 20 anos.

A Pergunta Perto da Porta

Naquela reunião, o cliente tinha um bom direito. Ele provavelmente seria indenizado. O caso fazia sentido, havia elementos para sustentar a tese e existia uma possibilidade real de vitória.

Mas, no final da reunião, já perto da porta, ele fez uma pergunta simples: “Quanto tempo isso demora?”

A resposta do sócio do escritório foi direta: aquele processo poderia demorar de 10 a 12 anos. Na época, talvez essa estimativa ainda fosse otimista.

Naquele momento, eu me perguntei: onde eu, Rodrigo, vou estar daqui a 10 ou 12 anos? Aquela pergunta mudou minha visão profissional.

O contencioso depende do Estado. E o Estado é ineficiente em muitos lugares do mundo. No Brasil, ele é especialmente ineficiente. Eu entendi que não queria depender do Poder Judiciário para entregar resultado ao cliente ou para construir minha carreira.

Por Que o Direito Societário

A partir dessa percepção, o direito societário começou a fazer muito mais sentido. Diferentemente do contencioso, ele é uma área que depende menos do Estado.

É claro que existem interações com órgãos públicos. A Junta Comercial, por exemplo, faz parte da rotina e nem sempre funciona como deveria. Também existem operações que envolvem o CADE. Ainda assim, a interferência estatal é muito menor quando comparada a uma disputa judicial tradicional.

No direito societário, boa parte do trabalho está na negociação, na estruturação, na estratégia, na redação contratual e na capacidade de antecipar problemas. É uma atuação mais próxima da realidade empresarial e menos dependente da lentidão do Estado.

Se alguma coisa incomoda na sua profissão ou na sua realidade, a pergunta precisa ser prática: o que você pode fazer para mudar? No meu caso, a resposta foi migrar para o direito societário.

A Decisão de Vir Para São Paulo

Na época, eu morava na Bahia e trabalhava em um bom escritório, inclusive atuando com direito societário. Mas a decisão de vir para São Paulo surgiu de uma leitura muito objetiva do mercado.

O direito societário acontece primeiro em Nova York, quase ao mesmo tempo em São Paulo e, depois, com alguma distância de tempo e intensidade, chega ao restante do Brasil. Se eu queria estar onde as operações aconteciam com mais frequência e sofisticação, não fazia sentido permanecer na Bahia.

A conclusão foi simples: eu precisava vir para São Paulo.

Não foi uma decisão fácil, nem tranquila. Meus pais disseram que não iriam me apoiar. Mesmo assim, eu tinha clareza sobre o caminho. Em São Paulo, eu poderia participar de muitas operações em pouco tempo. Na Bahia, talvez fizesse em um ano aquilo que em São Paulo poderia ver em poucos dias.

Especialização exige volume, prática e exposição a casos complexos. E isso vale para qualquer área. Se você vai operar o coração do seu filho, prefere alguém que faz 30 cirurgias por mês ou alguém que faz três por ano? A lógica é a mesma para o direito societário: é preciso contratar e aprender com quem realmente vive aquilo todos os dias.

São Paulo: Dura, Mas Necessária

Vir para São Paulo foi uma decisão acertada, mas isso não significa que tenha sido fácil. A adaptação foi difícil, e as diferenças culturais também pesaram.

Meu pai disse que não iria me apoiar. Morei de favor na casa de um tio e também na casa de uma namorada da época. Depois de algum tempo, aquela situação deixou de ser sustentável, e precisei encontrar outro lugar para ficar.

São Paulo é uma cidade dura. Mas também é uma cidade que ensina, prepara e coloca você diante de oportunidades que dificilmente aparecem com a mesma intensidade em outros lugares.

A decisão de vir para São Paulo estava diretamente ligada ao objetivo de trabalhar com direito societário em alto nível. Não foi confortável, mas crescimento profissional raramente vem acompanhado de conforto.

Um Recado Para Quem É Jovem

Para quem é jovem e está começando a carreira, existe uma mensagem importante: a vida é difícil. A vida é bem difícil.

Vai ganhar essa corrida quem levantar mais vezes e quem levantar mais rápido. Ao longo do caminho, haverá distrações, pessoas puxando seu tapete, obstáculos, críticas e gente dizendo que você não pode ou não consegue.

Isso não é exceção. Em muitos casos, é a regra. Uma vez que você entende que a vida funciona assim, não adianta reclamar. É preciso construir a própria trajetória e buscar seus objetivos com consistência.

Crescimento profissional não acontece da noite para o dia. Ele vem com tempo, insistência, escolhas difíceis e capacidade de continuar mesmo quando o cenário não parece favorável.

Sobre Liderança e Tempo de Experiência

Outro ponto importante é a liderança. Recebi uma mensagem de um rapaz jovem, de cerca de 20 anos, dizendo que queria aprender a liderar e se tornar uma força de liderança.

O conselho foi simples: primeiro, aprenda a ser liderado. Depois, com o tempo, aprenda a liderar.

Há coisas que dependem de estudo, mas há outras que dependem de experiência. Pessoas jovens podem ser muito boas em várias áreas, mas liderança exige maturidade, repertório, erro, observação e tempo.

Conclusão

A escolha pelo direito societário nasceu de uma percepção clara: eu não queria construir minha carreira dependendo da lentidão do Estado e do Poder Judiciário. Queria atuar em uma área mais estratégica, mais próxima das decisões empresariais e com maior capacidade de gerar resultado prático.

A decisão de vir para São Paulo foi consequência dessa escolha. Se o objetivo era atuar em alto nível no direito societário, era preciso estar onde as operações aconteciam com mais intensidade.

Nem toda decisão profissional importante será confortável. Muitas vezes, ela exige abrir mão de segurança, enfrentar resistência e começar em condições difíceis. Mas, quando existe clareza de objetivo, essas escolhas podem definir toda uma trajetória.

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