Por - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.

Ser inconformado pode ser uma grande força. É essa energia que faz alguém construir, insistir, melhorar, cobrar mais e não aceitar uma realidade mediana como destino final.

O problema é quando esse inconformismo se transforma em impulsividade, desgaste emocional e reações que consomem mais energia do que resolvem o problema. A questão não é perder a intensidade. A questão é aprender a reagir melhor.

A Pergunta que Me Fizeram

Recebi uma pergunta sobre algo que já comentei antes: se eu pudesse voltar no tempo, teria sido menos impulsivo em alguns momentos e teria me aborrecido menos.

A dúvida era se essa impulsividade, essa irritação e essa vontade de fazer as coisas do próprio jeito não seriam características naturais de um empreendedor ou de uma pessoa inconformada.

A resposta é: sim, em parte. O inconformismo faz parte. A energia faz parte. A vontade de construir algo melhor faz parte. Eu não mudaria essa energia nem esse inconformismo.

O que eu mudaria seriam algumas atitudes e, principalmente, algumas reações. Existe uma diferença grande entre manter a energia e se destruir emocionalmente por causa de cada problema que aparece.

O Que Eu Mudaria nas Minhas Reações

O que eu mudaria? Em vez de reagir de forma agressiva, chamar alguém de burro ou me irritar de maneira desproporcional, eu tentaria conduzir a situação com mais serenidade.

Em vez de explodir, eu diria: “Entendi. É dessa forma que eu quero. É dessa forma que eu penso. É esse o padrão que precisa ser entregue.” Se, depois disso, ficasse claro que a pessoa não conseguiria entregar, a decisão seria objetiva: cortar, trocar, reorganizar.

Por quê? Porque, em muitos casos, você está perdendo o seu tempo e também o tempo da outra pessoa. Existem pessoas com limitações reais de entrega. Isso não significa, necessariamente, que elas sejam ruins. Significa apenas que talvez não sejam adequadas para aquela função, aquele momento ou aquele nível de exigência.

Se alguém me pedir para cozinhar, por exemplo, eu provavelmente terei limitações. Não é o meu dom, não é a minha habilidade. O mesmo acontece em empresas: às vezes você exige de alguém uma entrega que aquela pessoa simplesmente não consegue fazer.

Quando você entende que a pessoa não vai entregar aquilo que você espera, o caminho mais inteligente não é se estressar indefinidamente. É trocar, ajustar ou trazer alguém mais sênior, alguém que entenda melhor o que você quer e consiga contribuir para o negócio crescer.

Os Dois Tipos de Pessoas no Time

De forma simples e até grosseira, existem dois tipos de pessoas dentro de um time.

O primeiro tipo é formado por pessoas que vão entregar aquilo que você pediu. Se você quer construir uma empresa que fatura R$ 20 milhões, esse time vai ajudar a chegar nesse número. É o time de vendas, financeiro, tecnologia, operação e todas as áreas que executam o plano.

O segundo tipo é formado por pessoas que vão fazer esses R$ 20 milhões virarem R$ 100 milhões. São aquelas que pensam diferente, trazem novas ideias, enxergam oportunidades e provocam mudanças relevantes na empresa.

Os dois perfis são importantes. Quem constrói é importante. Quem tem ideia também é importante. O erro está em esperar que todo mundo entregue a mesma coisa, no mesmo nível e com a mesma intensidade.

Se você entendeu que uma pessoa entrega X, não precisa se aborrecer porque ela não entregou X2. Entenda o perfil daquela pessoa e coloque-a no lugar certo. Ou, se aquele lugar não existir na sua empresa, siga em frente.

Quando a Pessoa Está no Lugar Errado

Também é importante entender quando uma pessoa está simplesmente no lugar errado. Ela pode ter valores, expectativas e prioridades legítimas, mas incompatíveis com o momento da empresa.

Imagine alguém entrando em uma empresa no início e dizendo que quer plano de saúde, reembolso de teste, muitos dias de férias, horário flexível e jornada reduzida. Tudo bem a pessoa querer isso. Existe espaço no mercado para diferentes modelos de trabalho.

Mas talvez esse espaço não seja em uma empresa que está começando, onde o ritmo pode exigir 14 ou 18 horas de trabalho por dia. Nesse contexto, o problema não é a pessoa querer outra vida. O problema é ela estar no lugar errado.

Respeitar a escolha da pessoa não significa adaptar toda a empresa a uma expectativa incompatível com o momento do negócio. Às vezes, a resposta mais honesta é reconhecer que aquele ambiente não é para ela.

O Que Eu Fui Aprender com o Tempo

Esse tipo de reação mais serena eu fui aprendendo com o tempo. Se pudesse voltar atrás, teria tido mais consciência de que as pessoas são como são.

Tem gente que não quer mudar. Tem gente que não quer melhorar. Tem gente que quer entregar das 8h às 18h e ir embora. E tudo bem. O ponto é saber o que aquela pessoa pode entregar e tomar decisões com base nisso.

Também é preciso colocar na conta que pessoas podem decepcionar. Alguém pode pedir demissão da noite para o dia e deixar um problema na sua mão. Alguém pode dizer que é fiel e, depois, passar a perna. Pode roubar cliente, roubar ideia ou tentar furar seu olho com um investidor.

Isso acontece. Faz parte do jogo. O importante é ser uma pessoa precavida, sem deixar de agir. Não deixe de fazer, não deixe de tentar e não desacredite completamente das pessoas.

Principalmente, não desacredite de você. Você precisa apostar em si mesmo. O resto do mundo só começa a apostar por consequência quando você demonstra que está disposto a continuar.

Ser Sereno Não É Ser Fraco

Existe uma confusão comum entre serenidade e fraqueza. Ser sereno não significa aceitar qualquer coisa, não cobrar resultado ou deixar a empresa virar bagunça.

Ser sereno significa reagir com mais inteligência. É perceber que nem todo problema merece uma explosão, nem toda frustração precisa virar rancor e nem toda decepção deve consumir dias da sua vida.

Você pode ser exigente sem ser destrutivo. Pode ser inconformado sem viver em guerra. Pode cobrar alto desempenho sem transformar cada erro em sofrimento pessoal.

A Mensagem Final

A mensagem é essa: você pode ser intenso, inconformado e difícil de satisfazer. Mas não precisa se aborrecer com tudo. Não precisa remoer cada frustração. Não precisa transformar cada problema em uma tragédia pessoal.

Se alguém te prejudicou, entenda o que aconteceu, aprenda e siga. Se alguém não está entregando, troque. Se uma pessoa está ocupando um lugar que poderia ser de alguém melhor, mais comprometido ou mais preparado, a maior injustiça talvez seja manter essa pessoa ali.

Demitir, trocar ou encerrar uma relação profissional pode parecer duro. Mas pior é prejudicar o negócio, prejudicar a si mesmo e impedir que outra pessoa, com mais vontade e capacidade, ocupe aquele espaço e contribua de verdade.

Conclusão

O inconformismo é uma força poderosa. Ele move empreendedores, líderes e pessoas que querem construir algo relevante. Mas, quando vem acompanhado de impulsividade excessiva, pode virar desgaste, conflito e perda de energia.

A maturidade está em preservar a energia, mas melhorar as reações. Cobrar sem destruir. Trocar sem sofrer demais. Aprender sem se tornar cínico. Continuar apostando em si mesmo, mesmo depois de decepções.

No fim, ser inconformado não significa viver em guerra. Significa não aceitar menos do que aquilo que você acredita que pode construir, mas com serenidade suficiente para continuar avançando.

Vamos Trabalhar Juntos?
Entrar em Contato