Por Rodrigo Valverde - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.
Bom dia, pessoal. Hoje quero compartilhar algumas histórias da minha carreira: uma operação bilionária, situações envolvendo corrupção e erros que cometi — e continuo cometendo — ao longo do caminho. São experiências que me ensinaram sobre ética, responsabilidade, pressão e a necessidade de entender as pessoas.
A primeira história envolve uma operação de mais de R$ 2 bilhões, realizada quando eu ainda era advogado e tinha meu próprio escritório. Foi, em valor agregado, uma das maiores operações unitárias de que participei. Era uma transação no setor de infraestrutura, com várias unidades de negócio e uma due diligence que envolvia áreas trabalhista, cível, societária, tributária e regulatória.
Todo mundo estava trabalhando intensamente para entregar o negócio. No meio daquela pressão, a sócia responsável pela área regulatória identificou um risco importante. Em relatórios desse tipo, normalmente trabalhamos com três sinalizações: green flag, quando não há um problema relevante; yellow flag, quando existe um ponto de atenção; e red flag, quando o risco é grave e exige uma análise muito cuidadosa.
A sócia classificou como red flag vários pontos relacionados a uma questão específica. O cliente ficou muito incomodado. Disse que, com aquele alerta vermelho, a operação não poderia seguir e que, na visão dele, havia uma lei dando suporte à estrutura.
Fui estudar o assunto com mais profundidade. Havia, de fato, uma lei que dava suporte à operação. Ao mesmo tempo, essa legislação estava inserida em um contexto político e jurídico delicado, com questionamentos sobre determinados dispositivos e investigações relacionadas ao processo de sua edição. Ou seja: não era correto fingir que não havia controvérsia, mas também não era correto tratar como inválida uma lei que continuava em vigor.
Como eu não tinha competência para anular a lei por conta própria, entendi que o relatório deveria explicar o contexto, registrar a existência dos questionamentos e deixar claro que a norma ainda era válida. Por isso, alterei a classificação de red flag para yellow flag, acompanhada de uma nota explicativa.
Minha função era conhecer os riscos, alertar sobre eles e apresentar a informação de maneira honesta. Eu não tinha um mandato para decidir pelo cliente. Naquelas condições, com o risco devidamente explicado, eu teria conforto para seguir adiante. O cliente, porém, queria um green flag, porque acreditava que a lei era suficiente e ameaçava interromper a operação caso não recebesse essa conclusão.
Eu disse que não poderia fazer isso. Não era uma discussão simples de certo ou errado, e justamente por isso não dava para transformar uma questão controvertida em uma certeza artificial. Também não dava para esconder o risco atrás de um texto ambíguo, com um aviso genérico para ser usado apenas se alguém fosse processado no futuro.
Falei ao cliente que, se ele quisesse me descontratar, tudo bem. O que eu não poderia fazer era fechar o projeto com uma opinião na qual não acreditava. Um honorário expressivo pode resolver muitos problemas no curto prazo, mas não compensa perder a reputação construída ao longo de uma carreira.
Se a operação desse problema depois, eu teria de conviver com as consequências do que assinei. Por isso, não dá para abrir mão dos próprios princípios em função do dinheiro, seja o honorário grande ou pequeno. A longo prazo, a sua palavra e a sua reputação valem mais do que um contrato.
Poucas vezes passei por situações de corrupção. Acredito que isso também seja resultado de postura: quando a conversa começa a sair do trilho, é preciso estabelecer o limite imediatamente. A primeira situação aconteceu quando eu era muito jovem, tinha cerca de 27 ou 28 anos e já tinha meu próprio escritório.
Eu havia enviado uma proposta de honorários a um diretor de uma multinacional. Ele me chamou para conversar e, depois de algum tempo, disse que eu precisava aumentar o valor da proposta. No começo, achei que ele estava apenas negociando. Mas ficou claro que o aumento pedido não correspondia ao serviço: era uma forma de criar espaço para um pagamento indevido.
Saí assustado e liguei para o meu padrinho, um homem cuja opinião empresarial respeito muito. Ele me disse algo que nunca esqueci: nunca faltou comida na minha casa. Eu poderia não ter excesso, o carro mais caro ou o melhor endereço, mas nunca havia passado necessidade. Portanto, não fazia sentido colocar minha vida em risco por um atalho.
Ele também me ensinou que entrar em um esquema pode ser rápido, mas sair dele é muito difícil. Uma marca desse tipo pode acompanhar a pessoa por muitos anos. Eu já não faria aquele negócio, mas saí daquela conversa ainda mais convicto de que não faria.
A segunda situação aconteceu em uma fase de muita pressão no escritório. Havia cobrança por custos, receita e novos contratos. Um diretor de uma empresa me ligou dizendo que havia gostado da proposta e que iria aprová-la. Em seguida, perguntou quanto receberia pessoalmente por aquele contrato.
Eu respondi que, pelo compliance, o valor seria zero. Eu atendia várias multinacionais e assinava contratos com regras claras. Fazer um pagamento pessoal colocaria minha carreira em risco. Ele insistiu, pediu um rebate e tentou encontrar uma maneira de receber por fora.
Eu disse que, se existisse uma comissão legítima, ela teria de estar prevista na proposta, ser transparente e poder ser justificada perante a empresa. Se o diretor tivesse apenas indicado o escritório, sem poder de decisão, seria possível discutir uma remuneração formal pela indicação. Mas, se ele tinha poder ou influência para contratar e queria receber parte da fatura em uma conta pessoal, não havia negócio.
Resumindo: não fui contratado, mas permaneci fiel àquilo em que acredito. Anos depois, soube que aquele profissional havia sido demitido e enfrentava dificuldades. Existe um caminho mais rápido para ganhar dinheiro? Às vezes, existe. Mas não recomendo. Trabalhar honestamente pode dar mais trabalho, porém permite ganhar tanto quanto — ou até mais — sem perder o sono.
Também me perguntaram sobre os erros que cometi no começo da carreira. Eu confio muito nas pessoas e provavelmente deveria confiar um pouco menos. A confiança é uma qualidade, mas, sem atenção e sem limites, pode virar vulnerabilidade.
A ansiedade foi outro erro importante. Eu queria fazer tudo no meu tempo, resolver tudo para ontem e imaginava que as outras pessoas funcionariam no mesmo ritmo. Nem todo mundo trabalha assim. Às vezes, uma cobrança feita na hora errada ou no tom errado cria mais resistência do que resultado.
Eu também queria ser descontraído e tratar todo mundo com proximidade. Só que, em alguns ambientes, aquilo que você entende como leveza pode ser recebido como invasão de espaço. Essa foi uma das coisas que mais precisei aprender em São Paulo, especialmente convivendo com o mercado financeiro.
O mercado financeiro pode ser um ambiente muito formal, competitivo e sensível. As pessoas trabalham muito, ganham bem e, às vezes, passam a acreditar que isso lhes dá um diploma de semideus. Uma crítica pequena é interpretada como uma ofensa enorme. Um e-mail que não agradou vira motivo para punição, perseguição ou tentativa de demissão.
Nesse ambiente, eu cheguei com um jeito mais expansivo, vindo da Bahia, querendo brincar e ser próximo de todo mundo. A ansiedade e a falta de leitura do ambiente me atrapalharam. Com o tempo, fui entendendo que existe uma habilidade importante no trabalho: saber o que dizer, quando dizer e, principalmente, o que não dizer.
O ser humano se adapta. Hoje estou mais preparado, embora continue errando e ainda me surpreenda positiva e negativamente com as pessoas. Uma das lições foi reduzir a expectativa em relação aos outros. As relações humanas são complexas, e entender isso ajuda a lidar melhor com o trabalho, com os clientes e com a própria carreira.
Se eu pudesse resumir tudo em uma mensagem, seria esta: não abra mão dos seus princípios por dinheiro, aprenda a dizer não à corrupção e entenda que crescer profissionalmente também exige maturidade emocional. Você vai errar, mas pode aprender com cada erro. Espero que essas histórias sejam úteis. Deus abençoe vocês.