Por Rodrigo Valverde - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.
Ontem tive uma experiência que foi a seguinte. Um amigo meu, e é bem amigo, ele montou uma empresa, ele já tem empresa, etc., mas ele montou um negócio separado, tem alguma conexão com o negócio original. E ele colocou muito dinheiro nesse outro negócio e ele chegou a ficar apertado. Ficou quase sem caixa. Bateu em algumas portas importantes e recebeu um term sheet de um fundo.
Ele mandou o documento no domingo. O fundo vai botar ali R$ 50 milhões de reais numa estrutura que eu achei interessante, não é a melhor do mundo, mas cara, tá ótimo para alguém que tá sem liquidez. Ele mandou o term sheet no domingo. Eu li e falei: “Cara, tá ruim.” Ele: “Pô, como assim tá ruim?”
E por que que tá ruim? O jurídico dele contratou um escritório, que é um escritório de um amigo dele, de um conhecido. O sócio sequer botou a mão no documento, mandou para um advogado pleno. O advogado pleno cuspiu uma minuta, só que o cara não tem a experiência, ele não tem a maturidade para fazer um documento daquele. Então o documento ficou capenga, aí o jurídico dele também não é brilhante e ficou o documento torto.
Então a gente combinou de falar ontem e repassar o documento. Ele falou: “Cara, tá aqui um documento que eu acho que pode ser anexo e aí de repente facilita o entendimento.” Resumindo, o documento ele precisa ter uma história, ele precisa ter começo, meio e fim. Então pareceu uma colcha de retalhos. O picote daqui, o picote dali, não dava para entender. Ele falou: “Pô, será que com o anexo ajuda?” Eu li o anexo, também não ajudava.
Aí ontem a gente tomou a seguinte decisão, repassando o documento, eu falei: “Meu velho, se você sabe o que está na minuta, eh, para um juiz, para um árbitro pegar isso aqui, tá horroroso, né? Se você sabe o que que tá, o que isso quer dizer?” E o outro lado sabe. E cara, a decisão que a gente tem que tomar é: fazemos um documento melhor, mas isso vai tomar mais 24 horas, ou dispara para a frente porque, apesar do documento tá ruim, pelo menos assina e a gente tenta consertar esse documento nas minutas finais e vamos ganhar tempo para botar esse dinheiro para dentro rápido.
Então foi essa a decisão que a gente tomou. Aquilo que eu achei que era grave, eu comentei, mas um comentário mínimo, e a gente mandou o documento para frente.
O que falta, na minha visão, para boa parte dos advogados é um senso de preparo, né, manda documento torto. Eu acho que falta essa visão crítica das coisas. Então você tem que ter a visão do que o seu amigo, do que o seu cliente tá precisando. Ele precisa urgente botar o dinheiro para dentro. Então, para ele, uma minuta torta e um potencial problema futuro é muito melhor do que um problema hoje de não pagar conta.
Então essa dinâmica de entender os riscos, descomplicar, pincelar só aquilo que for grave, tudo isso é uma visão estratégica que eu acho que qualquer cara de negócios e qualquer advogado que trabalha com negócio precisa ter.
Pessoal me perguntou sobre, pô, quanto tempo depois de formado você ficou confiante para dar sua opinião? Olha, eu não sei. Eu vou contar aqui duas histórias em que eu fiquei com medo e com bastante medo.
A primeira delas era uma empresa de capital aberto. Eu tinha saído do escritório grande, então primeiro passei para uma empresa de capital aberto, depois dois escritórios grandes, depois montei o meu. Era uma briga societária com uma empresa de capital aberto, com dois acionistas relevantes. Eu representava um acionista que tinha 15% da empresa, o outro acionista era uma multinacional, e eles tinham já comprado outros dois sócios que estavam alinhados com o meu cliente no começo, mas venderam a participação.
Chama assembleia, chama reunião de conselho, reunião no Rio de Janeiro, na sede da empresa multinacional. Por dentro eu tremia mais que vara verde, muito. O escritório que advogava pros caras tinha um sócio que foi do governo do Cabral, o cara mandava nas decisões, comprava decisões. Tem uma banca lá que nesse caso eu tinha uns seis advogados envolvidos. Chega eu e o cliente. Só em outras reuniões eu levei um pleno, mas nessa fui eu e ele.
Então, por dentro você tá tremendo igual vara verde, mas é igual cachorro: se o cachorro perceber que você tá com medo, ele avança. Então aquela frieza, tipo, parece que você dá uma congelada no sentimento, fala: “Rapaz, passando por aquela porta, o medo vai ficar do lado de fora.”
E o interessante que eu posso comentar com vocês é que o medo é muito maior do que a realidade. A realidade é muito mais tranquila de lidar, mas você fica com medo, você fica inseguro, e aí aquele negócio vai tomando corpo, vai evoluindo. A reunião foi boa. Fui ficando mais à vontade, o negócio fluiu. Demorou um pouquinho, mas a gente fechou o negócio. Meu cliente recebeu quatro vezes mais do que os outros acionistas. A gente demorou ali mais seis, oito meses, mas fechamos por quatro vezes mais. Foi um dia que foi bom para todo mundo.
A outra negociação clássica foi uma reunião em Nova York. O possível comprador era a Mastercard. Então peguei um avião para ter uma reunião na sede, no head lá da Mastercard, perto de Nova York. Fica um pouquinho no interior. A empresa é gigante, um VP global de M&A com os advogados, e você, um jovem advogado brasileiro.
Para a minha felicidade, eu representava um acionista e foi um outro advogado representando um outro acionista. Esse cara era mais velho que eu, virou um amigo, e ali aí começa a reunião. E o cara me deu algumas dicas de como me comportar. Ele falou: “Rodrigão, o gringo não olha no olho, não aguenta um olhar fixo por muito tempo.” Então, um dos segredos é: quando você for falar, olha dentro da bola do olho do cara, olha a sério e não pisca. Olha, penetrando ele, que ele vai baixar a vista. Ali você avançou.
Fiz um dever de casa, me preparei, pensei em cenários, pensei em perguntas, e tive também a felicidade de estar nesta ocasião com mais um advogado que não representava os interesses do meu cliente, mas tinha interesses em comum. Então, uma parte ali eu surfei coisas que ele falou e eu complementei, mas eu não fui 100% sozinho ali.
Mas também nesse segundo caso eu posso afirmar para vocês que o medo era maior do que os fatos.
Tudo aquilo que é novo, que você não conhece, é normal que você tenha medo. Acho que a beleza é você controlar o seu medo para que o medo não atrapalhe.
Então eu acho que o segredo, quem quiser rezar, reza, que eu acho que é um super caminho. Quem quiser meditar, medita também ou faz mindfulness. Mas o ponto é: você precisa isolar os seus sentimentos e seus medos, as suas projeções, do caso concreto.
Você não vai para lá para gaguejar. Essa gagueira já perdeu, esquece, volta para casa. Tenha medo até, se for o caso, até a porta da sala de reunião. Entrou ali, respire fundo, dá aquela fungada, fala: “Rapaz, não tem ninguém com sete cabeças aqui, não tem ninguém com três braços. Vou passar na porrada, vou sair na porrada.” Vá tranquilo. No meu caso, que sou católico, é, deixa Jesus passar na frente e sai da porrada.