Por - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.

Então, finalizando aqui a conversa desse caso dos 300 milhões. Parece que o negócio saiu da mesa, não sei o que deu errado. O cara ficou envergonhado de me contar, enfim, tentou me tirar do barco, por mesquinharia.

Ele mesmo já tinha oferecido um valor que era mais ou menos 60% do que eu pedi. E, numa circunstância completamente diferente, ele tinha gerado muito mais valor.

Mas, enfim, você pode chamar o cara de esperto, pode falar: “O espertalhão foi ser esperto e se deu mal”. Sim, ele se deu mal. Se ele vai conseguir reverter a situação dele, não sei.

Do meu lado, eu continuo torcendo para que ele faça um negócio dessa forma ou daquela forma. No meu estágio atual, eu não torço para o cara se dar mal por sede de vingança. Não tenho isso.

Gratidão, Aprendizado e a Importância de Formalizar

Honestamente, eu rezo, agradeço pelo aprendizado e só dou qualquer passo agora com as coisas mais alinhadas por escrito, para não ter essa conversa de novo.

Eu tenho um defeito de confiar nas pessoas, né? Então, isso não é legal no mundo dos negócios. Eu faço pros outros e, às vezes, não faço para mim. Mas beleza.

Então, por que não deu certo o caso? Ainda não sei, mas o cara com certeza tirou de campo o melhor jogador dele. Ele estava perdendo de 3 a 0, a gente virou para 5 a 3 e ele sacou o melhor jogador.

Eu tenho como ajudá-lo. Tenho pelo menos quatro opções para poder ajudá-lo. Mas entendi que eu existi na vida dessa pessoa para ensinar alguma coisa e para aprender outras tantas.

Então, ele deve estar refletindo sobre gratidão, deve estar refletindo: “Pô, será que eu fiz bobagem?”. Enfim, cada um tem sua história, seu aprendizado.

Então, vou fechar essa história aqui para poder contar outra.

Quando o Talento Muda as Regras do Jogo

Bom, para quem é de São Paulo, quem frequenta São Paulo, tem uma história curiosa. Eu fico abrindo a caixa de perguntas no Instagram, porque vem muita coisa e o negócio some em 24 horas, não dá tempo de responder tudo. Lembrando que é rotina, é sempre uma rotina pesada.

Mas acabaram de perguntar: “Assisti a esse programa financeiro, estou arrependido. O que eu faço?”. E aqui o papo é sem julgamento, como falei com vocês. E aí tem uma história que me lembrou, que eu me lembrei, e resolvi compartilhar.

Existe um cara muito famoso aqui, chefe de cozinha, dono de restaurante, normalmente queridinho. Ele está aqui no circuito Rio-São Paulo e tal. É badalado.

E a história dele é que o cara não tinha um gato para puxar o rabo. Duro, duro, durango, tango, kid, ralador. E a galera resolveu apostar no cara: “Pô, dar uma chance”. Aí o cara mudava de restaurante, etc. Eles falaram: “Ah, vamos apostar no cara”.

Resumindo, essa aposta deu certo e o cara virou para o grupo de acionistas e falou: “Ó, eu agora recebi uma proposta de um cara maior, muito melhor. Ele falou para eu chutar vocês e ir com ele”.

“Cara, como assim? Sou seu sócio.” O cara falou: “Tá, você é meu sócio, mas não comprou minha alma, então vou embora”.

A galera ficou indignada e falou: “Porra, te dei a mão e agora você faz isso. Não quero mais fazer nada com você, não quero nem te dar bom dia”. Teve uma turma que fez isso. Teve uma turma que falou: “Cara, vamos acomodar aqui”. E aí teve a participação no negócio reduzida para ele continuar no negócio.

E, pelo que tudo indica, o cara fez isso mais uma vez, mas aí foi diferente. Um dia ele acordou e falou: “Porra, eu sou o cara. Eu sou aqui o Michael Jackson, não sei o quê, e o negócio quem toca sou eu. Então, agora que eu tenho um nome, eu vou inverter aqui. A minha participação vai ser de tanto e aí vocês querem, querem; senão, eu mando todo mundo para casa”.

Você pode olhar isso de várias formas. Você pode falar: “Porra, o cara é um hustler, o cara virou o jogo, saiu de empregado a dono de sei lá quantos por cento ou mais restaurantes”. Ah, você pode ter essa visão.

Mas você também pode pensar: “Porra, o cara saiu passando a perna em várias pessoas”. Descombinando, porque o cara foi crescendo ao longo da vida, foi engrossando o pescoço e resolveu mudar a regra do jogo.

Tem uma galera que fala: “De fato, mudar a regra do jogo é justo. Eu acho que é justo, porque quem carrega o piano é o cara”.

Uma Saída Equilibrada para Relações de Longo Prazo

Dando um pouquinho da minha visão — e eu não sei se sou a Virgem na casa de conveniências —, o que eu acho legal e aquilo que eu fiz na vida, assessorando pessoas, é o seguinte: imagina que você que está me ouvindo é um cara mega talentoso.

Aí eu compro, você fala: “Cara, beleza, eu vou botar aqui meu dinheiro, 90% meu, 10% seu”. Se, de fato, você é o cara que carrega o piano, eu acho que deve haver uma regra, alguns marcos para que você possa ir crescendo.

Se é você que carrega o piano, o primeiro ano é 10%, o segundo ano é 20%, até ficar meio a meio, até que, em determinado momento, você possa me comprar nessa métrica. Enfim, acho que dá para ser algo ponderado.

O que o cara fez foi um atropelo. Ele atropelou, fez inimizade, etc. Eu não curto exatamente as coisas assim, na força. Nunca pratiquei e nunca aconselhei, na verdade. Acho que dá para você ser ponderado.

Outro olhar ponderado é falar: “Pô, quanto o pessoal botou?”. Vou chutar aqui: R$ 10 milhões. Pô, 10 milhões. Esse dinheiro já voltou? A que taxa? Dado o risco do negócio, era uma aposta, uma promessa. Voltou a 20% ao ano? Voltou a 30%?

Pois não. Então, o cara também ganhou dinheiro aqui. Será que não dá para ser flexível? Será que não dá para buscar o meio do caminho?

Eu gosto da saída consensual porque, por mais que eu esteja mudando a regra do jogo — saindo de 10% para 50% —, eu também estou mostrando que faz sentido esse 50% para você ter os 50% de forma perene. Eu também quero crescer e, se eu estiver insatisfeito, o negócio também não anda.

Inclusive, eu defendo isso para empresas de tecnologia. Falei: “Cara, não aperta muito o founder, não deixa ele muito diluído, senão o cara vai perder o interesse”. Aí ele vai chegar na reta final com percentual pequeno, com pouco dinheiro, e vence lá. O Totvs vai lá e compra o cara, o Itaú vai lá e compra o cara. Não compra a empresa, compra o talento do cara.

Então, eu acho que, sendo razoável, justo e honesto, pensando no outro, não só pensando em você, é uma forma equilibrada de construir relações de longo prazo.

E, como a gente viu no exemplo anterior, esse mundo dá voltas. Então, cuidado para hoje você não estar apontando a arma para alguém e amanhã essa arma estar na sua cabeça. Valeu, galera. Boa noite.

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