Por Rodrigo Valverde - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.
Tenho recebido muitas mensagens, praticamente toda semana, perguntando o que é a Pro Solutti e por que eu fiz esse movimento. Então, acho que este áudio pode ajudar todo mundo a ficar na mesma página.
Eu era advogado, bem-sucedido, tinha crescido na carreira e possuía um escritório bacana. Em 2018, fui ajudar uma família a vender um crédito judicial. Conversei com alguns fundos de investimento que atuavam nesse mercado. Eles gostaram do caso, mas entenderam que o valor do cheque era muito baixo. Não fazia sentido mobilizar toda a estrutura para comprar um caso daquele tamanho.
Aí tive dois raciocínios. Primeiro: é pequeno para o fundo, mas não é pequeno para mim, como pessoa física. Resolvi comprar aquele processo. Segundo: de onde saiu esse processo, provavelmente existem outros. E foi assim que nasceu a Pro Solutti.
Convidei uma pessoa que já tinha trabalhado comigo para participar da Pro Solutti — e ela está comigo desde o zero. Começamos a estudar esse mercado em 2019 e, naquele ano, eu oficialmente deixei a advocacia para me dedicar a essa atividade.
Existem muitos processos no Brasil e existe muito dinheiro parado na mesa. Eu decidi trabalhar com antecipação de recebíveis. A pessoa tem R$ 1 milhão para receber daqui a dois ou três anos. A gente pergunta: “Você não quer receber R$ 500 mil agora?”.
Por que R$ 500 mil? Por que um deságio de 50%? Porque o Judiciário pode mudar prazos e critérios. No processo trabalhista, por exemplo, já houve discussão sobre o índice de correção — TR, IPCA ou SELIC. O STF pode mudar uma orientação. Então, precisamos ser conservadores na hora de adquirir um crédito.
Eu não sinto prazer nenhum em comprar um crédito por metade do preço. Tenho que me adaptar à situação. Se fosse um crédito que você soubesse que receberia no dia 5 ou no dia 10 do mês, seria muito mais fácil: haveria previsibilidade. Mas existe recurso, ação rescisória e uma série de acontecimentos possíveis. Por isso precisamos trabalhar com cautela.
Precatório é um mercado antigo. As pessoas compram esses créditos por 10%, 20% ou 30% do valor de face. Hoje, o precatório federal costuma ter um deságio menor porque existe mais previsibilidade: você sabe que a União vai pagar. Mas será que é certeza?
Acabaram de mexer nos prazos dos precatórios municipais e estaduais. Também já houve discussão sobre mudanças no prazo dos precatórios federais. O devedor é o dono da bola e da caneta. Você recebe um papel dizendo que vai receber daqui a alguns anos, mas esses anos podem mudar. Você está brigando contra quem controla o prazo.
Se eu compro um processo trabalhista contra um banco, o banco não tem essa caneta. Ele não pode simplesmente dizer: “Não vou pagar agora; só vou pagar daqui a seis anos”. É por isso que eu só compro crédito privado. Também só compro contra empresas sólidas, com capital aberto, cujos balanços conseguimos analisar.
O que eu estou falando parece relativamente simples, mas existe uma complexidade por trás. A gente olha os ativos, faz diligência, pede a opinião de contadores e precifica de forma conservadora. Só compra aquilo que entende que tem alta probabilidade de receber — e que consegue estimar quanto vai receber.
Às vezes, a pessoa acha que o processo vale R$ 5 milhões, mas eu entendo que vale R$ 2 milhões. Então faço uma oferta em cima de R$ 2 milhões. Se o resultado passar desse valor, dividimos o excedente. Assim, nem eu preciso estar necessariamente certo, nem você precisa estar necessariamente certo: a gente consegue destravar o negócio.
Para não entrar na crença de quanto cada um acha que o processo vale, a gente precifica. Essa metodologia vem se desenvolvendo desde 2018 e está sempre sendo aprimorada. Investimos bastante em tecnologia e em pessoas. A Pro Solutti é um produto construído ao longo de anos e com muito investimento.
Só na Justiça do Trabalho, existem centenas de bilhões de reais em discussão e dezenas de bilhões são pagos anualmente. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal têm bilhões provisionados. A gente não vai comprar todo esse mercado — seria impossível —, mas quer aumentar a nossa posição. Já temos uma carteira relevante e queremos crescer.
A população brasileira precisa de dinheiro. Se fosse possível antecipar uma parte desses créditos, haveria muito mais liquidez. A pessoa poderia pagar o aluguel, o colégio do filho e se sustentar hoje. De que vale ter um processo de R$ 1 milhão para receber daqui a três anos, se tanta coisa pode acontecer nesse intervalo?
O crédito hoje é mais restrito, as taxas são altas e existem financeiras que cobram juros muito elevados. A Pro Solutti tem um viés financeiro e também um viés social. Já ajudamos pessoas que poderiam ser presas por falta de pagamento de pensão alimentícia e pessoas que estavam prestes a ser despejadas.
Ao mesmo tempo, queremos provocar algumas discussões: por que existe esse volume de processos? Por que as empresas não mudam de postura para reduzir os conflitos? Como podemos ajudar a construir uma legislação que privilegie menos a briga e a discussão?
Durante muito tempo, fizemos isso em um círculo muito restrito de amigos, com cheques altos. Há pessoas com R$ 2 milhões ou R$ 6 milhões aplicados. Decidimos testar o mercado e abrir devagar, com cuidado.
O investimento não é para todo mundo. Hoje, o prazo é de 24 meses e a remuneração mencionada é de 15% ao ano. A estrutura pode ser uma sociedade em conta de participação ou um contrato de mútuo, com impactos tributários diferentes. Por isso, existem dois modelos. Temos uma carteira de ativos dada em garantia e continuamos comprando.
Não é toda vez que abrimos uma oportunidade. Quando isso acontece, criamos uma lista de pessoas e nos comunicamos com elas. Quem quiser saber mais pode mandar uma mensagem direta.
No almoço, lembrei de uma história que vale compartilhar. Eram quatro sócios de um grande escritório de advocacia em São Paulo. Em determinado momento, decidiram sair, montar o próprio escritório e levar clientes do antigo empregador ou do sócio majoritário.
O escritório parecia estar dando certo. Havia clientes estrangeiros e uma dinâmica de recebimentos em uma conta no exterior. O tempo passou até que um dos sócios resolveu sair de férias. Na semana seguinte, os outros precisaram falar com ele, mas ele não atendia.
Eles precisavam de um arquivo que provavelmente estava no computador dele. Quando apertaram o botão para ligar, a frente do computador caiu. O sócio havia desmontado a máquina, retirado todo o hardware e deixado apenas uma casca vazia.
Foi assim que perceberam que ele não tinha saído apenas de férias: tinha desaparecido da sociedade. Pegou todo o dinheiro que estava na conta do exterior e ficou com ele. A sociedade se desmanchou algum tempo depois.
Todo covarde tem uma desculpa. Talvez ele tenha pensado: “Sou eu que movimento, sou eu que trabalho, sou eu que faço isso e aquilo”. Mas passou a perna nos outros sócios.
Para quem está empreendendo, saiba que isso é mais comum do que imaginamos. Você está sujeito a intempéries, viés político, mudanças de legislação, decretos do prefeito ou do presidente, Anvisa, Antaq e uma confusão de normas — além dos riscos ligados ao ser humano.
O que é bom hoje pode não ser bom amanhã. A pessoa em quem você confia hoje pode não ser a pessoa em quem você confia amanhã. Empreender, como diz um amigo meu, é como ser uma criança: você dorme duas horas por noite e acorda chorando. São altos e baixos, um loop infinito, mas estamos aí. A gente é brasileiro e não desiste nunca.
Desculpa o áudio longo. Essa é a versão curta da história. Um abraço e bom dia.