Por Rodrigo Valverde - Advogado e Consultor Empresarial especializado em M&A, Direito Societario e Gestao Patrimonial.
Imagine que eu sou um diretor comercial da Johnson and Johnson. Eu consigo criar um produto novo e eu alcanço vendas de R$ 10 milhões de reais no ano. O meu bônus veio parrudo. Eu ganhei bastante dinheiro com relação ao bônus. Só que as ações da empresa saíram de R$ 200 para R$ 250. Isso gerou um valor de mercado adicional de R$ 1 bilhão de reais para a empresa.
Então, quando a empresa se comporta de determinada forma, quando alguns profissionais pensam em soluções, produtos, caminhos alternativos para aumento de receita ou aumento de margem, o mercado percebe isso valorando a empresa. Imagine um outro exemplo, uma empresa focada em B2B e de repente ela começa a ir pro B2C e isso gera muita receita, gera muita venda.
Entender criação de valor é olhar além do resultado imediato. Não é apenas vender mais em um mês, fechar um contrato relevante ou entregar uma meta isolada. Criar valor acontece quando uma decisão, uma estratégia ou uma pessoa dentro da companhia melhora a percepção sobre o futuro do negócio. Pode ser uma nova linha de produto, uma expansão de mercado, uma tecnologia que aumenta eficiência, uma redução estrutural de custo ou uma mudança que torna a empresa mais competitiva.
Por isso, criar valor está diretamente ligado à capacidade de transformar esforço em crescimento sustentável. Uma empresa vale mais quando o mercado entende que ela tem potencial de gerar mais caixa, crescer com consistência, proteger suas margens e se diferenciar dos concorrentes. Esse valor pode aparecer no preço das ações, em uma avaliação de mercado, no interesse de investidores ou no quanto alguém estaria disposto a pagar para comprar aquela companhia.
Então, eu estou gerando valor para a empresa, que é o valor dela de mercado, por quanto alguém compraria essa empresa, por quanto analistas financeiros avaliam que essa empresa cresceu, o quanto ela vale. Isso é criar valor para empresa, mais do que uma linha de receita direta, é fazer com que a empresa tenha mais valor no mercado, ela seja melhor percebida pelo mercado, pelos seus concorrentes e por aí vai. Esse é o insight.
Existem algumas formas. Se a empresa for de capital aberto, fica mais fácil. Ela tem um capital aberto na bolsa de valores. Você sabe quanto custa aquela ação, quanto o mercado acha que aquela empresa vale, quanto acha que aquela ação vale. Existem os analistas que inclusive falam: “Olha, o preço alvo dessa ação é de X. Hoje ela tá em 10, o preço alvo é 15”. Então, tudo indica que se ela fizer o dever de casa, o mercado se comportar como eles acham que vai se comportar, aquela ação ela vai valer mais. Essa é a parte fácil.
Outro método bastante utilizado é múltiplo de ebitda. Ebitda é uma fórmula para você calcular o valor de uma companhia e, dependendo do mercado que ela esteja, ela vai valer três vezes ebitda, 5, 15, 20 vezes ebitda. Essa é uma forma.
Quando a gente tá falando de empresas menores, eu acredito que fórmulas mais objetivas, como X faturamento, X receita, X lucro, eu acho que são formas e fórmulas mais interessantes de você entender como calcular o valor de uma companhia.
Ah, Rodrigo, eu peguei aqui um acordo de acionistas e fala que vão contratar uma empresa especializada. Eu acho isso uma tremenda furada. Por quê? Porque você pegar duas empresas diferentes, provavelmente você vai chegar em dois valuations diferentes. Então essa briga por valuation com empresas externas normalmente só atrasa o processo.
Eu acho que vai ser difícil você chegar a um valor absoluto e eu acho que o pessoal que sugere esse tipo de cláusula tem pouca vivência prática, porque na prática isso dá muito mais problema do que solução.
O stock option plan normalmente é um programa de retenção da pessoa. Lembrando aquele exemplo do diretor comercial da Johnson, se eu gerar 10 milhões de receita numa empresa, provavelmente o meu bônus vai ser parrudo em qualquer empresa que eu esteja. Agora, porém, se eu recebo um stock option plan, ou seja, um programa de compra de ações da companhia e eu recebo uma parte da minha bonificação em ações, eu quero que a ação saia de 200 para 250, depois 250 para 300, 300 para 320. Então eu quero ter essa remuneração que é uma remuneração de longo prazo.
Normalmente a pessoa recebe as ações, só que ela não pode vender no dia seguinte, senão seria a mesma coisa que dar dinheiro para ela. Eu estou te dando um bem, mas você não pode vender ele agora e trabalhe para que ele possa valer mais, porque se a empresa valer mais, você também vai ganhar bastante dinheiro com isso. É um pouco dessa lógica.
Normalmente aquelas pessoas que você não pode perder dentro da empresa são pessoas que fazem a diferença ou que podem fazer a diferença. Qual é a diferença entre uma e outra? O cara que faz a diferença, beleza, o cara já tem um resultado, você já consegue medir ele. O cara que pode fazer a diferença é aquele talento ou aquela pessoa que tem uma ideia que ainda não se provou, mas que você acredita que vai dar certo.
A gente falou sobre o exemplo da empresa que só faz B2B, que vai pro B2C. O cara tá lá gastando dinheiro para fazer essa linha de produtos pro B2C ou serviços pro B2C. Ele ainda não performou, mas você acredita que ele é o melhor cara para fazer isso. Testa um ano, dois, eventualmente três para você saber se isso funcionou ou não. Então fala: “Ó, você que tá começando essa linha do B2C, se isso der certo, você vai perceber um delta muito maior. Por quê? Porque é algo novo. A empresa ainda não testou esse modelo e se você for bem-sucedido, todo mundo vai ganhar com isso.”
Outro ponto importante, eu sou a favor de conceder direitos econômicos e não direitos políticos. O que eu quero dizer com isso? Todos os exemplos que eu estou dando, eu gostaria que a pessoa recebesse um delta do valor que ele criou, mas eu não gostaria que ele fosse alçado a uma condição de dirigir a companhia.
O que eu quero dizer, se ele é o diretor comercial, vamos dar um stock option para ele receber parte do valor que ele criou e que outro diretor criou, que a própria companhia criou, sugere engajamento. Agora, se a Johnson and Johnson quiser fechar a filial do Amazonas e abrir no Ceará, não vai ser o diretor comercial que vai falar: “Não, não quero, não desejo.”
E isso vale para companhias menores também. Você tá trazendo um diretor de tecnologia, um CTO, você tá trazendo um diretor financeiro, você tá conferindo a eles missões importantes, mas não necessariamente esse cara vai ter o poder de vetar uma operação de fusão ou de falar: “Olha, agora nós vamos distribuir 100% dos dividendos ou vamos investir em produtos para a companhia.”
Eu acho que a gente precisa separar as caixas. Dar dinheiro é uma coisa, dar político é outra coisa. Então, quanto mais sócios você agrega numa empresa, pior fica o cenário para você chegar a um consenso. Então, direito econômico, sim, direito político, não.
Outra dúvida recorrente é se pode haver diluição. Me prometeram 1, 2, 3, 5% da participação de uma companhia. A empresa recebeu um aporte, você foi diluído? Claro, você sempre será diluído num aporte, a não ser que você tenha um acordo que preveja a antidiluição. Então, tanto faz a quantidade de aporte, você sempre vai ter 100% da empresa. É menos comum, mas existe.
E por que a diluição? A nossa empresa vale R$ 100 milhões de reais. Você recebeu 10%. Então você tem R$ 10 milhões de reais. No dia seguinte a empresa recebe um aporte de R$ 100 milhões de reais. Você não vai ter R$ 200 milhões de reais. Você continua tendo R$ 10 milhões de reais. Só que em vez de ter 10%, você passa a ter cinco. A empresa vale 100 milhões, recebeu um aporte de 100 milhões, seu 10 milhões virou 5% da empresa. E isso é bem normal.
Por que que a empresa recebeu um aporte de 100 milhões? Para que ela possa valer 300, 400 no futuro. Esses 100 milhões vão ser investidos na empresa para o próprio desenvolvimento, para ampliação de linha de receita. Então, a diluição, em 99% dos casos, ela vai acontecer.
A pessoa precisa comprar por essas ações? Pode ser que sim, pode ser que não. Eu tanto posso dar a ela de graça. Falei: “Olha, você não precisa pagar nada. Isso aqui é um programa de incentivo e estão aqui as condições para você receber X ações por ano durante X anos.” Quanto a pessoa pode comprar.
E o método de valuation que você usa para conceder essas ações, imagina que é três vezes faturamento. Então o diretor comercial vai receber X% da empresa e a empresa foi calculada em três vezes faturamento. Quando da saída dela, a metodologia ou será a mesma, que é o que eu recomendo, ou ela pode ser diferente.
E por quê? Você pode ter um evento de liquidez. O que que é um evento de liquidez? A venda da empresa para um concorrente,